Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra

Escapo-me dali, me apressando entre os atalhos. Quando reentro em casa não encontro vivalma. Todos foram para o caminho da areia assistir à desgraça, consolando Ultímio. De soslaio, parece-me ouvir um ruído. Entro na sala fúnebre e nada vejo, senão o aquietado corpo do velho Mariano. Lá está o desfinado, entre flores e velas. Subo para o quarto. De novo, sobre a cabeceira, uma outra carta. A tremência em minhas mãos não me ajuda a ler:

“Estas cartas, Mariano, não são escritos. São falas. Sente-se, se deixe em bastante sossego e escute. Você não veio a esta Ilha para comparecer perante um funeral. Muito ao contrário, Mariano. Você cruzou essas águas por motivo de um nascimento. Para colocar o nosso mundo no devido lugar. Não veio salvar o morto. Veio salvar a vida, a nossa vida. Todos aqui estão morrendo não por doença, mas por desmérito do viver.

É por isso que visitará estas cartas e encontrará não a folha escrita mas um vazio que você mesmo irá preencher, com suas caligrafias. Como se diz aqui: feridas da boca se curam com a própria saliva. Esse é o serviço que vamos cumprir aqui, você e eu, de um e outro lado das palavras. Eu dou as vozes, você dá a escritura. Para salvarmos Luar-do-Chão, o lugar onde ainda vamos nascendo. E salvarmos nossa família, que é o lugar onde somos eternos.

Comece em seu pai, Fulano Malta. Você nunca lhe ensinou modos de ele ser pai. Entre no seu coração, entenda aquela rezinguice dele, amoleça os medos dele. Ponha um novo entendimento em seu velho pai. Às vezes, seu pai lhe tem raiva? Pois lhe digo: aquilo não é raiva, é medo. Lhe explico: você despontou-se, saiu da Ilha, atravessou a fronteira do mundo. Os lugares são bons e ai de quem não tenha o seu, congênito e natural. Mas os lugares nos aprisionam, são raízes que amarram a vontade da asa.

A Ilha de Luar-do-Chão é uma prisão. A pior prisão, sem muros, sem grades. Só o medo do que há lá fora nos prende ao chão. E você saltou essa fronteira. Se afastou não em distância, mas se alonjou da nossa existência.

Antes, seu pai estava bem consigo mesmo, aceitava o tamanho que você lhe dava. Desde a sua partida ele se tornou num estranho, alheio e distante. Seu velhote passou a destratá-lo? Pois ele se defende de si mesmo. Você, Mariano, lhe lembra  que ele ficou, deste lado do rio, amansado, sem brilho de viver nem lustro de sonhar.”


MIA COUTO


‘Pataphysics

The science of imaginary solutions, which symbolically attributes the properties of objects, described by their virtuality, to their lineaments. (Alfred Jarry)

Nobody heard him, the dead man, 

But still he lay moaning:

I was much further out than you thought 

And not waving but drowning.

Poor chap, he always loved larking

And now he’s dead

It must have been too cold for him his heart gave way, 

They said.

Oh, no no no, it was too cold always 

(Still the dead one lay moaning) 

I was much too far out all my life 

And not waving but drowning.

Not waving but drowning, by Stevie Smith

(I always think about how tragically funny this poem is. Really, so funny I can’t not like it. But so tragic. Ahahaha! I love this!)

Das Lied von der Erde / Von der Jugend

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Mitten in dem kleinen Teiche

Steht ein Pavillon aus grünem

Und aus weißem Porzellan.

Wie der Rücken eines Tigers

Wölbt die Brücke sich aus Jade

Zu dem Pavillon hinüber.

In dem Häuschen sitzen Freunde,

Schön gekleidet, trinken, plaudern,

Manche schreiben Verse nieder.

Ihre seidnen Ärmel gleiten

Rückwärts, ihre seidnen Mützen

Hocken lustig tief im Nacken.

Auf des kleinen Teiches stiller

Wasserfläche zeigt sich alles

Wunderlich im Spiegelbilde.

Alles auf dem Kopfe stehend

In dem Pavillon aus grünem 

Und aus weißem Porzellan;

Wie ein Halbmond steht die Brücke,

Umgekehrt der Bogen. Freunde,

Schön gekleidet, trinken, plaudern.

Leonard Bernstein

Leonard Bernstein

Como é que eu posso ler se eu não consigo concentrar minha atenção. Se o que me preocupa no banheiro ou no trabalho é a seleção.

Raul Seixas
The world needs real dialogue, that falsehood is just as much the opposite of dialogue as is silence, and that the only possible dialogue is the kind between people who remain what they are and speak their minds. Albert Camus (Resistance, Rebellion, and Death)

The world needs real dialogue, that falsehood is just as much the opposite of dialogue as is silence, and that the only possible dialogue is the kind between people who remain what they are and speak their minds. Albert Camus (Resistance, Rebellion, and Death)

Perdi o trem, perdi a vergonha, perdi a energia… Perdi tudo. Menos minha faculdade de gozar, de delirar… Fui ordinaríssimo. (…) Que delícia, Manuel, o carnaval do Rio!”
Mário de Andrade em carta a Manuel Bandeira.

Perdi o trem, perdi a vergonha, perdi a energia… Perdi tudo. Menos minha faculdade de gozar, de delirar… Fui ordinaríssimo. (…) Que delícia, Manuel, o carnaval do Rio!”

Mário de Andrade em carta a Manuel Bandeira.

- A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos - viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais. […] A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscados. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e brinca;  pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre. 
- E depois que morre? - perguntou o Visconde. 
- Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?
(Monteiro Lobato- Memórias da Emília)

- A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos - viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais. […] A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscados. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e brinca;  pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre. 

- E depois que morre? - perguntou o Visconde. 

- Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?

(Monteiro Lobato- Memórias da Emília)

A vida do poeta tem um ritmo diferente
Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu
Preso, eternamente preso pelos extremos intangíveis.

  • A vida do poeta tem um ritmo diferente
  • Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu
  • Preso, eternamente preso pelos extremos intangíveis.